sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Mensagem do Padre Geral na Abertura do V Centenário do Nascimento de Santa Teresa de Jesus



Frei Savério Canistrá, Prepósito
Geral da Ordem dos Carmelitas
Descalços
A todos os membros da Ordem dos Carmelitas Descalços, frades, irmãs e seculares e toda a grande família teresiana, irmãs e irmãos, a partir da nossa Casa Mãe, a Casa de Teresa, em Ávila: Que a Paz de Cristo, o Jesus de Teresa, esteja com todos vós!
Depois de cinco anos e meio de aturada preparação pessoal e comunitária, chegamos a este dia tão desejado, 15 de Outubro de 2014, Solenidade de Santa Teresa, em que iniciamos as celebrações do V Centenário do seu nascimento. Feliz 500º aniversário, Santa Madre!
É para nós uma magnífica oportunidade este Quinto Centenário, para que Teresa continue a falar-nos com a força do seu testemunho e da sua paixão. A Santa fala-nos daquilo que viveu, conta-nos a história de uma alma - a sua - que depois de muitas resistências cedeu ao amor do Deus vivo descobriu na própria verdade, a bondade e a beleza radical. Teresa não se vangloriou da sua experiência, mas antes no-la transmitiu para que também nós possamos entrar na sua mesma plenitude de vida e de felicidade, que de outro modo não o teríamos conhecido, ficando prisioneiros do mundo.
Constatamos, de dia para dia, que o nosso ser tende a reduzir-se às proporções de um mundo dominado pelas dinâmicas do poder económico e tecnológico. Acreditamos que somos omnipotentes, mas na realidade estamos perdendo o maior e melhor que possui o ser humano: a sua capacidade de amar como Deus o ama. Teresa leva-nos a este nível do nosso ser, ao ponto de contato entre o homem e Deus, o qual tem um rosto e um nome, o de Jesus Cristo crucificado e ressuscitado.

No centro do centenário teresiano deve estar aquele que está no centro do coração de Teresa e não aquele que está no centro dos nossos projetos mundanos, das nossas iniciativas. No centro do centenário devemos colocar aquilo que, a quinhentos anos de distância, não envelheceu, e muito menos perdeu a sua atualidade, ou seja, uma vida empapada, ferida por Deus, à qual foi confiada uma missão de crucial importância: recordar à Igreja e ao ser humano de todos os tempos que o centro do homem é Deus e que o centro de Deus é o homem.
Tenho medo de chamar a tudo isto mística, porque esta etiqueta poderia fazer de Teresa um jardim fechado, uma fonte selada à qual só podem aceder uns poucos escolhidos. A missão de Santa Teresa é universal e não é senão uma nova proposta do Evangelho, da alegria do Evangelho, da sua frescura, da sua força libertadora e humanizadora.
Teresa partilha com qualquer um, com toda a pessoa e em qualquer lugar do mundo cujo andar se perde numa estrada sem qualquer direção, aquilo que ela encontrou: uma morada e um caminho. Estes são precisamente os títulos das suas obras principais: caminho e morada. Se pensarmos bem, são as dimensões fundamentais que a vida necessita para existir e ser humana, as quais sentimos hoje tão ameaçadas por um modo de viver que nos domina e dispersa.
Aquele caminho e aquela morada nas quais Teresa viveu deveria conduzir-nos a este Centenário. Se não conseguimos colocá-los no centro, creio que não agradarão a Santa Teresa as celebrações que organizaremos para ela, por mais solenes, atraentes e refinadas que sejam. Teresa é uma monja simples e pobre, não o esqueçamos! Uma monja com o hábito e as sandálias quase sempre cheios de pó, com o rosto marcado pelo cansaço físico, com o ânimo muitas vezes envolvido em sofrimentos e preocupações pelas suas irmãs e irmãos. Mas para além deste cansaço e fragilidade, há uma força e uma determinação férreas.
É a força de quem, apesar de ter que se mover continuamente, permanece em casa; é a decisão de quem, no meio da complexidade das situações, não perde de vista a meta que orienta seu caminho.
Como podemos fazer para colocar no centro o caminho e a morada de Teresa? Reler os seus escritos - como o fizemos unidos ao longo destes últimos anos -, é certamente um primeiro passo, de importância fundamental. Mas não podemos ficar quietos. Temos de passar à prática.



Estamos chamados a reconhecer em nós mesmos aquilo que as palavras de Santa Teresa descrevem, ao encontrar a minha casa e o meu caminho. Advirto que isso não se poderá conseguir se não fazemos escolhas. Não sei se teremos que escolher apagar com mais frequência os nossos telemóveis, os nossos computadores, tabletes ou ainda - o que é bastante mais complexo - teremos de aprender a fazer de tudo isto um uso bem diferente. De uma coisa estou convencido, não celebraremos adequadamente o Centenário se só fizermos coisas para honrar a memória de Santa Teresa, mas tornando-nos Teresa, se aceitais esta expressão bastante audaz.

Creio que Teresa nos está a dizer o que São Paulo dizia aos seus discípulos de Corinto: vós mesmos sois a minha carta de recomendação, “escrita não com tinta, mas com o Espírito de Deus vivo, não sobre tábuas de pedra, mas sobre as tábuas da carne dos vossos corações” (2 Cor 3, 2-3).
Em conclusão: Para onde nos conduz o Centenário de Teresa? Leva-nos aos nossos corações, o lugar onde habita a nossa verdade e a verdade de Deus vivo. Que elas se encontrem no nome e seguindo as pegadas da Santa: esta é a única celebração que poderá alegrar o coração da Santa Madre, fazendo-a sentir a fecundidade da sua procura, da sua luta e do seu infatigável peregrinar.
Obrigado, Teresa, porque não nasceste para ti, mas antes nasceste verdadeiramente para todos nós!

Ávila, 14 de Outubro de 2014
Fr. Saverio Cannistrà, OCD

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