sábado, 24 de julho de 2010

Santa Teresinha


Poesia
P 34: JOGAR FLORES



Em todas as tardes de junho de 1896, depois de Completas, Teresa e as cinco jovens irmãs do noviciado se encontram em torno da cruz de granito do pátio. Elas recolhem pétalas de vinte roseiras e lançam-nas ao Crucifixo.
A última etapa de toda a sua vida de amor será cantada em Uma rosa desfolhada (P 51). O anúncio imagético de sua missão póstuma, “uma chuva de rosas” (CA 9.6.3), desvela – ou melhor, não deveria velar – a única ambição de Teresa, no céu e na terra: amar Jesus e fazê-lo amar.

Jesus, único Amor, ao pé de Teu Calvário,
Que prazer para mim, à noite, jogar flores!…
Rosas primaveris1 por Ti despetalando,
Quisera enxugar Teu pranto2.
Atirar flores é ofertar as primícias
De pequenos gemidos e de grandes dores.
Alegrias e penas, leves sacrifícios,
Estas são minhas flores!3…

Com a alma enamorada4 de Tua beleza,
Quero dar-Te, Senhor, meus perfumes e flores.
E, atirando-as por Ti, sobre as asas da brisa,
Quero abrasar os corações!…
Jogar flores, Jesus, eis aí minhas armas
Quando quero lutar5 para salvar pecadores;
Nesta batalha venço… e sempre Te desarmo
Com minhas flores!…

As pétalas da flor, acariciando Tua Face,
Vão dizendo que é Teu este meu coração.
Compreendes o que diz minha rosa esfolhada
Sorrindo ao meu amor!
Jogar Flores, repetindo Teus louvores,
Só tenho este prazer neste vale de dores…
Daqui a pouco, no céu, estarei com os Teus anjos
Jogando flores!…



P 51: UMA ROSA DESFOLHADA

Poucos místicos foram tão longe quanto Teresa, minada pela doença, no limite das forças, oferecendo seu nada, lançando-se aos pés de Jesus, num ato de puro e total amor. Assim a vemos: sem pedir nada, abandonando-se, quase no além-morte, pode-se dizer quase no além-amor.
A partir de maio, Teresa já não pode mais participar da liturgia floral das noviças (cf. P 34). Ela vai renunciando aos atos comunitários um após o outro. Só uma tarefa suprema ela conserva: “Devo morrer”. Morrer desfazendo-se ao correr dos dias, como uma rosa que se despetala. Na oblação mais absoluta, sem partilha, sem procura, sem lamento, sem encenação, sem arte. Sua generosidade rivaliza com sua delicadeza, e a doação de sua vida se traduz em mansidão sob o pezinho de Jesus Menino, sob os últimos passos do Homem das Dores.
O símbolo da rosa desfolhada, hoje em desuso, mantém-se aqui em sua patética beleza, na autenticidade do vivido.
Teresa não está pensando em se dar a Jesus, mas em desfolhar-se sob seus pés, em morrer dissolvendo-se. “A rosa em seu fulgor pode embelezar a festa, mas a rosa desfolhada é simplesmente lançada ao sabor do vento. A rosa desfolhada se dá para não ser mais. Cúmulo do abandono. Essa é a prova última do amor, sem saber o que Jesus fará. Teresa não passa de uma rosa desfolhada, ou seja, nada.
Para Teresa, amar é dar-se sem esperança de paga. Meu desejo é ser desfolhada para sempre, para agradar ao bom Deus.


Jesus, quando Te vejo, em Tua Mãe apoiado,
Deixar seus braços
E ensaiar a tremer, nesta terra exilado,
Os Teus primeiros passos,
Diante de Ti quisera uma flor desfolhar
Em seu frescor,
Para ver Teu pezinho repousar sem dor
Sobre uma flor!…

A rosa desfolhada é a imagem verdadeira,
Divino Infante,
De uma vida que quer se imolar toda inteira
A cada instante.
Muita rosa deseja irradiar formosura
Em Teu altar,
Numa doação total… Busco ambição mais pura:
“Desfolhar-me!…”

Brilho de rosa torna uma festa luzente,
Ó Menino do céu;
Mas, rosa desfolhada, esta vai, simplesmente,
Do vento ao léu.
Uma rosa desfolhada entrega-se a seu dono
Para sempre, amém.
É como ela, Senhor, que feliz me abandono
A Ti também.

Sem susto a gente pisa em pétalas de rosa
Que vão morrendo.
Decoração sem arte e despretensiosa,
Assim o entendo…
A Ti foi minha vida, ó Jesus, consagrada
Com meu porvir.
Aos olhos dos mortais isto é rosa fanada:
Vou me extinguir!…

Por Ti devo morrer, Beleza1 eterna e viva
Que sorte de ouro!
Desfolhando-me dou prova definitiva
Que és meu tesouro!…
Teus passos infantis eu sigo, em meu fadário,
Vivendo aqui em Teus braços,
Pensando em suavizar, na estrada do Calvário,
Os Teus últimos passos!…

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