quarta-feira, 25 de fevereiro de 2015

Palavra do Fr. Alzinir F. Debastiani OCD

PEREGRINAÇÃO QUARESMAL COM SANTA TERESA  





 Centenário do nascimento de Santa Teresa, nada mais aconselhável do que recordar alguns de seus ensinamentos para o crescimento pessoal nas virtudes, com a consequência de um maior empenho pessoal e comunitário no serviço a Deus e ao próximo, objeto da verdadeira conversão que nos pede o Tempo Quaresmal. É um tempo de graça (2 Cor 6,2) para crescer no amor, pelo qual vencemos a globalização da indiferença pessoal e social (cf. Mensagem Papa Francisco para Quaresma 2015).  
O sentido da ascese cristã, da luta contra o egoísmo, nos oferece a Santa Madre:  
“... eu gostaria que essas grandes virtudes [amor fraterno, humildade e desapego] fossem objeto do nosso particular esforço, tornando-se a nossa penitência, porque, como já sabeis, não aprovo penitências excessivas, que, se forem feitas sem discernimento, pode provocar malefícios à saúde. Neste caso, porém, não há o que temer, já que, por maiores que sejam, as virtudes interiores não privam o corpo de suas forças para servir à religião, antes fortalecendo a alma. E, como eu disse outras vezes, podemos acostumar-nos a coisas muito pequenas para alcançarmos a vitória nas grandes” (S. Teresa de Jesus, Caminho de perfeição 15,3).  
O acostumar-se a coisas muito pequenas joga um papel fundamental no crescimento espiritual, já que no dia a dia fazemos tantas pequenas coisas no trabalho, na família, mas sem colher ou dar um sentido cristão a estas coisas, que talvez as façamos rotineiramente. Cabe-nos, então, viver as mesmas ocupações diárias de forma vigilante e do ponto de vista da fé, da esperança e da caridade.  
Como? A Santa Madre vem ao nosso encontro para dizer-nos que “o verdadeiro amante em todas as partes ama e sempre se recorda do amado” (Fundações 5,16), pois o perfeito amor consiste em contentar a quem amamos (id., 5,10) nas coisas que fazemos. Assim, vivendo na presença de Deus, à luz da fé, as ocupações cotidianas são ocasiões para participar nos ofícios de Cristo pelo exercício do ofício sacerdotal, através do qual prestamos culto a Deus por meio das ocupações da vida familiar, da vida de trabalho e estudo e nos relacionamentos sociais; do ofício profético, pois o fim de tudo o que fazemos é a glória de Deus; do ofício real, pois mostra que cada pequeno gesto, mesmo escondido, feito por amor a Cristo e ao próximo, colabora na edificação do Reino de Deus. Por meio delas nos associamos a Cristo Jesus e vamos transformando ações banais em ações divinas, segundo a B. Elisabeth da Trindade (cf. Céu na terra, 40).  
Muitas vezes torna-se fácil permanecer um dia ou mesmo algumas horas sem alguma refeição por penitência. Mais difícil poderia ser o estar um dia sem usar a internet, sem assistir a novela preferida ou programa de TV, ou mesmo não comentar alguma fraqueza de um colega ou familiar, para dedicar-se à oração ou ao serviço de algum enfermo ou mesmo na visita a alguma pessoa anciã ou afastado da Igreja ou da Comunidade...  
Creio que seja importante nesta Quaresma escutar este conselho de S. Teresa: prestar atenção às virtudes e fazer delas objeto de nosso particular esforço, tornando-se nossa penitência. E sabemos que o empenho diário para vivê-las exige esforço, já que o exercício das virtudes é sinal de uma fé e oração vivas, transformadas em obras concretas para o bem dos outros.  
Perguntemo-nos então: como está minha vivência do amor fraterno, da humildade e do desapego em meio às ocupações diárias na família e em outros lugares?  
O amor fraterno antepõe o outro a mim; busca o seu bem e o seu crescimento. Favorece o que é bom e interessa-se pelo bem do próximo. É um amor que se nutre do encontro com Cristo, que se une ao sofrimento e necessidades do outro.  
Ao mesmo tempo é um amor humilde, o qual não olha o outro com superioridade, mas que vê a sua possibilidade de ajudar como um dom da graça divina. É um amor que supera a tentação de desistir diante da enormidade dos problemas, mas é capaz de fazer o que lhe é possível, de dar a sua contribuição, mesmo que seja pequena, para aliviar em alguma coisa o sofrimento de quem lhe está próximo. O resto confia ao Senhor da História, que é quem a conduz (cf. Deus caritas est, 34-35) e que na Cruz assumiu o último lugar da humanidade. Tudo isso nos conduz ao desapego de nós mesmos, do egocentrismo, tentação tão presente em tudo o que habitualmente fazemos.  
Se conseguirmos encarnar na vida um pouquinho mais destas virtudes neste Tempo Quaresmal, estaremos certos de que haverá mudanças na própria vida e na vida familiar e de Comunidade, transformando-as em ilhas de misericórdia por meio da oração, de gestos concretos e de uma sincera conversão. Assim estaremos agindo contra a globalização da indiferença (Francisco,Mensagem...).  
Quer fazer a prova? Mãos à obra!  
Fraternalmente e com votos de santa peregrinação quaresmal!  
  
Fr. Alzinir F. Debastiani OCD  
Roma, Quaresma 2015  


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