domingo, 5 de setembro de 2010

Jovens da OCDS


Caminhos de Oração

“A razão principal da dignidade humana consiste na vocação do homem para a comunhão com Deus. Já desde sua origem o homem é convidado para o diálogo com Deus. Pois o homem, se existe, é somente porque Deus o criou e isto por amor. Por amor é sempre conservado.” (Gaudium et Spes, 19)
O homem é um ser essencialmente orante, desde a criação Deus colocou em seu coração o desejo de buscá-lo e de permanecer em íntima comunhão com Ele. Portanto, orar é um trato com Deus no qual lhe manifestamos os desejos do nosso coração, é fundamentalmente um relacionamento com Deus, o OUTRO transcendente; o que nos transforma é o encontro com o OUTRO e não apenas propósitos voluntaristas repetidos diariamente. O Criador convida incessantemente cada pessoa a buscá-lo para uma experiência de diálogo, ou melhor, a uma vida oracional onde a Sua vontade esteja direcionando a vontade e o cotidiano do orante. É por meio da oração e dos Sacramentos da Igreja que o homem adquiri a graça e a força para se tornar digno de tal empreita.
Deus vem ao encontro de seus ‘amigos’ porque sabe que estes só encontrarão a verdadeira felicidade junto dele. Anseia, portanto, pela resposta do homem que sozinho não é capaz de encontrar a razão principal de sua dignidade. Além disso, deseja que seus ‘amigos’ sejam perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito (Mt 5,48).
Com o sacramento do Batismo as criaturas tornam-se filhos muito amados de Deus e assim o “cristão, reconhece a tua dignidade” (São Leão Magno) sendo, portanto, chamado a levar uma vida conforme nos apresentou Jesus Cristo, que sempre realizou a vontade do Pai. Cristo é o grande mestre da oração que ensina seus discípulos a orarem com um coração puro e uma fé viva.
A tradição cristã aponta ao orante caminhos pelos quais se intensifica a familiaridade com o divino; a oração vocal, a meditação e a oração contemplativa são meios que levam o orante a uma profundidade interior a ponto de exclamar: “depois de algum tempo percebi que minha oração havia passado dos lábios para o coração. Parecia-me que o coração, com cada uma de suas batidas, repetia as palavras da oração... Em seguida, experimentava em meu peito e em meu coração um fogo singular e beatificante” (Relatos de um peregrino russo, p. 34).
A vida de oração significa estar habitualmente em sintonia com Ele, o grande mestre da vida espiritual. Para se chegar a tal comunhão é necessário percorrer uma longa estrada que possui desafios (desânimo, falta de compromisso ou interesse), na qual acabam prolongando o percurso da caminhada. No entanto, proporcionará ao fiel:
Uma confiança filial determinada, que ajudará na superação das tribulações;
A esperança filial de colocar-se com toda confiança nas mãos do nosso bom Pai do céu;
E a humildade (fundamento da oração) que é a disposição para receber gratuitamente o dom da oração conforme a Sua vontade.
Conforme diz um cisterciense do século XII, Hélinaud de Froimont: “Há uns que bendizem o Senhor porque é poderoso; outros porque é bom para eles, finalmente outros porque é bom em si mesmo. Os primeiros são escravos que temem, os segundos são mercenários que só pensam em seu interesse, mas os terceiros são filhos que só pensam em seu pai...
Só este amor pode afastar-nos do mundo ou do egoísmo a fim de dirigi-lo a Deus.” Deve-se buscar o Senhor na oração não para se beneficiar materialmente, mas espiritualmente, acreditando no amor do Pai que ama seus filhos sem esperar nada em troca, isto é entrar em intimidade com o Amado através da oração.
A perseverança na oração iluminará o dia-a-dia do fiel para que veja as diversas realidades com uma sensibilidade bastante diferente daquela que o mundo oferece.
Com os “prós” e “contras” do caminho rumo à intimidade divina o orante caminha desapegando de tudo aquilo que não o leva a Deus. Permanecendo e se firmando no Deus vivo que move e governa a pessoa nas suas dimensões espiritual, afetiva e intelectual.
“O senhor conduz cada pessoa pelos caminhos e na maneira que lhe agradam. Cada fiel responde ao Senhor segundo a determinação de seu coração e as expressões pessoais de sua oração. Entretanto, a tradição cristã conservou três expressões principais da vida de oração: a oração vocal, a meditação, a oração contemplativa. Uma característica fundamental lhes é comum: o recolhimento do coração. Esta vigilância em guardar a Palavra e em permanecer na presença de Deus faz dessas três expressões tempos fortes da vida de oração.” (Catecismo da Igreja Católica, 2699)

Oração: Caminho para a intimidade com Deus

O ato de colocar-se a caminho exige um claro discernimento em relação ao destino que se pretende chegar e os meios que serão utilizados para alcançar a meta almejada.
Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo é o destino final de todo homem, de forma especial para aqueles que O buscam com todo o coração. A procura pelo Santo dos Santos dá-se por e com amor, não é mais somente viver para Deus, mas viver com Deus, combustível que move os amantes. “Se a alma busca a Deus, muito mais a procura o seu amado”. (São João da Cruz, Chama 3,28)
O principal meio para se chegar a intimidade com Deus será a própria vida do orante, pois ‘a procura de Deus faz parte da própria natureza humana que não se realiza fora dela’. A Bíblia, palavra de Deus, é capaz de promover a aproximação do orante com seu criador; a Tradição da Igreja por meio dos seus apelos a uma vida enraizada em Cristo, a abertura ao Espírito Santo que sopra e direciona o orante conforme os desígnios de Deus são caminhos que nos levam a profundidade com o Criador. “É verdade que temos igrejas para orar e livros litúrgicos, mas é preciso que a tua oração interior esteja contigo. Nas igrejas celebra-se o culto, e nelas habita o Espírito Santo, mas tua alma também deve ser a igreja de Deus, para quem ora sem cessar, o mundo inteiro se converte em igreja” (Silvano de Atos, op. Cit., PP.29-30), eis a verdade que nos coloca diante de Deus e de sua onipotência, podemos encontrá-lo no mais profundo do nosso ser e sermos uma igreja orante.
Durante o percurso, a contemplação fará parte do itinerário do caminhante. O dom de contemplar pertence à natureza humana que pode ver o Senhor no ordinário da vida chegando a tal intimidade com Deus que poderá dizer como o peregrino russo: “Eu me acostumei de tal maneira à oração, que não a abandonava nunca, sentia-a ecoar dentro de mim, não só quando estava acordado, mas também durante o sono, sem que ela fosse interrompida por um só instante, quaisquer que fossem as minhas ocupações” (Relatos de um peregrino russo, p. 58).
A dimensão contemplativa dá-se a partir das virtudes teologais que direcionam o coração do homem à comunhão com o Deus vivo, tornando-nos aptos a conhecê-lo.
A oração é considerada como via inicial da maior parte das “dinâmicas” que torna o homem um ser contemplativo. Pelo diálogo (tu a TU) e por meio das dimensões cristológicas, eclesial e trinitária, o homem faz a sua caminhada convencido de que a oração autêntica é aquela que o tornará cheio da experiência viva de Deus, e que será conduzido de forma inegável e prazerosa a um testemunho de fé e de amor. A intimidade com Deus é de tal modo que o Espírito Santo “estabelece sua morada no homem, e este já não pode deixar de orar. Quer durma, quer vele, a oração não se separa de sua alma. Enquanto come, enquanto bebe, enquanto descansa ou trabalha, enquanto está mergulhado no sono, o perfume da oração exala espontâneo de sua alma.
Além disto, não mais domina a oração limitando-a a determinados períodos de tempo, mas estende-a por todo o tempo” (Traité de Isaac Ninive, p. 174), esta é a experiência daqueles que se dedicam ao caminho da oração.
Deus e o orante são os protagonistas desta caminhada. Da parte de Deus sabe-se com certeza que ele almeja o coração do homem. Já da parte do homem um grande esforço é necessário para que o encontro entre ambos aconteça, portanto é indispensável à tomada de consciência sobre a presença de Deus e esta se adquire abrindo as portas do coração para que Ele possa tomar posse.
A intimidade com Deus pela oração reflete-se no convívio com o próximo, a oração é a chave e o adubo que abre todas as portas e fertiliza a terra do nosso relacionamento com Deus, com o irmão de caminhada e com a sua própria vida, “sem a oração, todas as virtudes são como árvores sem terra; a oração é a terra que permite crescerem todas as virtudes. O cristão, meu amigo, é um homem de oração. Seu pai, sua mãe... sua vida, tudo isto para ele é Cristo. Quanto eu chego a amar a Cristo até este ponto, amarei necessariamente também todas as criaturas de Deus. Eu também fiz isto mas esta atitude de nada serve. Quando, ao contrário, comecei a mar a Deus, neste amor encontrei o meu próximo e, neste amor de Deus, meus inimigos se converteram em amigos, em criaturas divinas” (Evágrio) .
O caminho para buscar a intimidade com Deus está traçado em nosso coração, é pela oração que se alcança este ideal de vida, coloquemo-nos a caminho dando os primeiros passos.

V Encontro de Jovens da OCDS

Frei Everaldo, ocd

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