domingo, 5 de setembro de 2010

Jovens da OCDS

Palestra: – Auto - Conhecimento em Maria como modelo Carmelitano – Tayara



“O aspecto particular da Virgem Maria que deve estar presente em qualquer pessoa chamada ao Carmelo é a inclinação a meditar em seu coração, é a frase que o Evangelho de São Lucas usa duas vezes para descrever a atitude de Maria frente a seu Filho”. Se todos os demais aspectos da vida mariana podem estar presentes, a devoção, o escapulário, o terço e todas as demais coisas. Todos eles sim, todavia, são aspectos secundários na devoção mariana. Maria é nosso modelo de oração e meditação. Este interesse em aprender a meditar ou a inclinação à meditação e a característica fundamental de qualquer secular carmelita e talvez, a mais importante.

(...) Maria é para os membros da Ordem Secular o modelo de atitude meditativa e de disponibilidade. Ela atrai e inspira os carmelitas de uma maneira contemplativa a entender a vida do corpo místico de seu Filho, a Igreja. Isto é, ela atrai a pessoa ao Carmelo”. (P. Aloysius Deeney, OCD in Elementos Para O Discernimento Da Vocação À Ordem Dos Carmelitas Descalços Seculares).

O Carmelo é um celeiro de possibilidades. Nele há uma rica herança não apenas de tradições, mas de possibilidades de enriquecimento e de crescimento espiritual. Na transitoriedade da vida, o Carmelo nos aponta que podemos ser santos, que podemos viver o que antes parecia impossível: uma santidade impregnada de nossas humanidades. Através da espiritualidade carmelitana, enxergamos que vivemos no tempo na esperança da eternidade, com os olhos no Absoluto.
O ser humano é um peregrino em busca de novas fontes para seu ser. E é nesse contexto que se torna importante o discurso sobre a espiritualidade e sobre o auto-conhecimento.
A espiritualidade pressupõe o auto-conhecimento do ser humano em sua totalidade e integralidade, ou seja, o ser humano a ser compreendido como corpo, alma, psiquismo, desejos, ego, superego, relacionamentos com os outros, consigo e com Deus. A espiritualidade vista como medida de enriquecimento, cura interior, relacionamento com Deus e consigo para projeções externas é uma forma do ser humano se ver com realidade, com verdade. A espiritualidade pode significar uma medida de reconciliação com Deus, partindo do arrependimento do pecado, que se projeta na reconciliação consigo e com o outro.

Quando penso em “modelo carmelitano”, penso em contemplação, em espiritualidade e em como a nossa espiritualidade está empobrecida, devido ao ritmo da vida que levamos. Não temos tempo para pensarmos tristes ou alegres, resolvidos ou indecisos, fazendo ou não a coisa certa. Não temos tempo para pensar, para sentir, para nos experimentar como humanos, para conhecer as nossas fragilidades, para o AUTO-CONHECIMENTO.
Nossa espiritualidade passa por esse mesmo caminho, o dos atropelos. Muitas vezes agimos como cristãos por obrigação, fazemos a vivência da fé cristã por tradição ou devocionismo vazio. E o conhecimento verdadeiro e autêntico de Deus vai sendo sonegado. Dessa forma, o RECONHECENDO-TE EM CRISTO não pode acontecer.
Vista de uma maneira cristã podemos acreditar, de forma talvez um pouco reducionista, em três dimensões da espiritualidade: a adoração (verticalidade – Deus e Eu), a reflexão (crer é também pensar) e a ação (a fuga da alienação e a espiritualidade do engajamento). Assim, pode-se tentar falar em espiritualidade integral, aquela que nos diz quem somos e nos aponta para o que devemos ser.
Nesse contexto, é que começamos a pensar em MARIA como modelo de espiritualidade. É importante pensarmos que a espiritualidade passa pelo conhecimento, discernimento, intercessão e intervenção.
Em praticamente todos os momentos bíblicos em que se fala de Maria, há a presença dessas dimensões:
Anunciação (Lucas 1, 26)
Visitação (Luc. 1-39)
Bodas de Caná (Primeiro Milagre de Jesus) (Jo 2, 1) –“Fazei tudo o que Ele vos disser”.
Aos pés da Cruz (Jo 19, 25)

Como carmelitas amantes do Carmelo ou apenas desejosos de conhecê-lo, sabemos que Maria é um dos seus alicerces mais profundos e mais ricos. Cristãos-católicos proclamam-se filhos de Maria, carmelitas, alem de filhos proclamam-se irmãos da Virgem Santíssima, desta que leva o nome da nossa ordem e é a Rainha do Monte Carmelo.
Na história da Ordem Carmelita, temos que a Virgem Santíssima apareceu a São Simão Stock no século XIII, momento em que instituiu o escapulário e fundou as configurações do modelo carmelitano por meio desse santo que mais tarde viria a ser o superior da Ordem. Portanto, a presença de Maria na história do Carmelo é algo profundo e antigo. Para nós, Maria não é somente a mãe que intercede junto ao Pai, ela é modelo de silêncio e voz, espera e ação, palavra e musica força e fragilidade feminina. Tudo isso, indubitavelmente, se resume no auto-conhecimento de Maria e de sua posse de si mesma.
Orando à Virgem do Silêncio, Pe. Inácio Larranaga evoca:

Tu és disponibilidade e receptividade. Tu és fecundidade e plenitude. Tu és atenção e solicitude pelos irmãos. Estás revestida de fortaleza. Resplandecem em ti a maturidade humana e a elegância espiritual. És senhora de ti mesma antes de ser Nossa Senhora. Em ti não existe dispersão. Em um ato simples e total, tua alma, toda imóvel, está paralisada e identificada com o Senhor. Estás dentro de Deus e Deus dentro de ti. O mistério total te envolve, te penetra e te possui, ocupa e integra todo o teu ser.

Espiritualidade integral no modelo mariano, nas palavras de Fr. Patrício Sciadini, é “dizer um sim grávido das conseqüências do amor”.
É também deixar que o Espírito Santo nos conduza nesse caminho de auto-conhecimento: dando-nos o dom da FÉ que transforma e frutifica nosso temperamento, caráter, psiquê e olhares, oferecendo-nos a concretude de ser verdadeiro na manifestação da nossa cristandade e da nossa religiosidade.
Assim, a religiosidade (que é a dimensão que nos re-liga ao Absoluto) deixa de ter aquela forma antes esvaziada de espiritualidade e possa ter a mesma autenticidade da fé de Maria, com o Espírito Santo, permeando todas as dimensões do ser.
“O homem para ser dono de si mesmo deve viver em seu interior e só a partir daí terá um trato autenticamente humano. De outro lado, a misteriosa grandeza da liberdade está no fato de que Deus mesmo a respeita. As decisões do homem são intransferíveis, só a si e à sua consciência cabem as determinações transcendentais que o homem há de tomar na vida” (Edith Stein in El alma, El yo y La libertad, tradução livre).
Maria também demonstra ser modelo de auto-conhecimento para o cristão e para o carmelita, pois é sinal constante da presença ardente do Espírito Santo. Na encarnação (anunciação do anjo), a pessoa do Espírito Santo tomou posse total do universo de Maria. Desde então, ela passa a irradiar o Espírito de Deus por onde passa:
Visitação (Luc 1, 41)
Cântico de Simeão (Luc 2, 33)
Pentecostes (Atos 1, 14)

Conhecer-se exige interiorização, processo que está intimamente ligado à meditação e à contemplação, marcas características da Virgem. O auto-conhecimento, muitas vezes, é um processo longo e doloroso, de verdadeira lapidação e crise, uma crise que propicia o crescimento e o amadurecimento. Diante da crise, devemos seguir o exemplo da Mãe, da Virgem do Silêncio, que guardava todas as coisas no seu coração e meditava. (Lucas 2, 19).
O silêncio e a meditação de Maria eram como lâmpadas que iluminavam as trevas da dor, da angústia, dos seus inúmeros questionamentos. Um silêncio que grita.
Maria era, apesar de santa, humana, portanto cheia de humanidades, confusões, dúvidas e questionamentos. Sua grandeza está no fato de que em meio a tanta humanidade, Maria não reage de forma impaciente, irritada, agressiva, temerosa, mas sempre temente confiante e paciente, ou seja, tendo a mais pura expressão de FÉ. Mais uma vez o silêncio grita.
Ex.: Quando Jesus se perdeu no templo (Luc. 2, 41)
Quando Simeão anuncia que Jesus seria sinal de contradição e que uma espada traspassaria sua alma. (Luc. 2, 33)
Quando Jesus morre na cruz (Jo 19, 25)

Diante da anunciação e da encarnação, como pode não ter Maria saído repentinamente com medo? Como pode uma jovenzinha assumir plano tão grandioso, com tão grandiosa serenidade? Tudo isso, além de ser reflexo de ter sido concebida sem pecado, revela a integridade emocional e psíquica de Maria. Só alguém que se RECONHECE EM DEUS é capaz de agir assim.
Luc. 1 38: Sou uma serva, Faça-se!
Nesse reconhecimento e nesse faça-se, há uma imensa profundidade que revela intensa entrega, fé e doação. Mais uma vez nos recordamos do sim grávido das conseqüências do amor.

Maria diante do silêncio de Deus

Muitos santos, teólogos e escritores expressaram o silêncio de Deus, um silêncio que fere que causa dúvida e dor, mas um silêncio que pode falar forte ao coração, tudo depende do olhar.
São João da Cruz, o grande santo carmelita e doutor da Igreja assim descrevem esse silêncio:

Onde é que te escondeste
Amado me deixando com gemidos?
Fugiste como cervo, havendo-me ferido.
Saí por ti clamando, já eras ido.

Jesus, mostrando toda a sua humanidade, também expressa na cruz o silêncio do Pai quando tem a impressão de abandono: “Pai, por que me abandonaste?”.
O salmista também o expressa: “Onde está o seu Deus?” (Salmo 41)
Não se trata de sarcasmo de um voltairiano ou de um ateu. É a expressão de um crente envolvido pelo silêncio de Deus.
O silêncio de Deus é algo que está presente, mas a fé adulta, daquele que decide tomar posse de si mesmo e ter auto-conhecimento em Cristo, é a fé que vê o essencial, aquele que é invisível.
E Deus continuava em silêncio. Que fará Maria? Seu faça-se proporcionará continuamente um formidável estado interior de calma, serenidade, elegância, dignidade, uma categoria interior fora de série. Não haverá no mundo emergências dolorosas e nem eventualidades surpreendentes que possam desequilibrar a estabilidade emocional da Mãe. Antes de ser Senhora nossa fora senhora de si mesma.

Na cruz: Maria foi silenciosa sempre e, na sua humildade, percebemos que sempre preferiu ficar em segundo plano. Mas no momento da maior humilhação e dor de seu filho, ela se coloca em primeiro plano, aos pés da cruz, ainda silenciosa, mas forte e plenamente íntegra, compreendendo sua posição de mãe não apenas do salvador da humanidade, mas de mãe da humanidade na extensão de João. Compreendeu, pois todo o significado daquele momento (João 19). Aí Maria mais uma vez diz FAÇA-SE!
Nas palavras de Pe. Inácio Larranaga,
“Tudo que não se abre é egoísmo. Devoção mariana que acaba em si mesma é falsa e alienante. O trato com Maria, que busca exclusivamente segurança ou consolação, sem se irradiar para a construção de um reino de amor, não só é uma sutil busca de si mesmo, mas um perigo para o desenvolvimento normal da personalidade.”

O papel de Maria, assim, não é de ser solucionadora dos nossos problemas como se tratássemos com ela de forma comercial. Mas ela nos ajuda a encarnar Cristo em nós, ajuda-nos a RECONHERCERMO-NOS EM CRISTO e, dessa forma, ajuda-nos a sermos mais íntegros, mais completos e a trilharmos um caminho mais reto rumo ao auto-conhecimento misericordioso. Com ela aprendemos a nos olhar com mais respeito, mais misericórdia e, conseqüentemente, sermos cristificados, conformados a Jesus.

Digamos, ao modelo de Maria, um sim grávido das conseqüências do amor, por meio do silencio que grita!

VI Encontro de Jovens da OCDS

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