domingo, 5 de setembro de 2010

Trato de Amizade com Deus

Oração: Trato de Amizade com Deus

Nos escritos de Santa Teresa, grande mestra espiritual do Cristianismo, encontramos uma seiva sempre viva que não cessa de correr, perpassar e dinamizar as entranhas e todas as dimensões da vida desta mulher ‘acostumada’ a viver dentro das muralhas de Ávila, mas que sempre sonhou uma liberdade maior, desejando voar longe, em novos espaços e em novos céus.
O caminho espiritual de Teresa é essencialmente um caminho amoroso, no qual Deus, o Amado, se faz seu particular pedagogo, conduzindo-a com mão firme e apaixonada através de diversas etapas místicas nas quais a santa vai conhecendo-O melhor e mais profundamente. É esse o caminho que Teresa descreve na sua obra do “Castelo Interior”, onde utiliza o símbolo do castelo para descrever os períodos e estados – as “moradas”- pelas quais passa a pessoa habitada pelo Espírito Santo em direção ao amor pleno de Deus e à união transformante. Desde um primeiro momento, o amor se faz urgência em sua vida, e podemos dizer que também em sua oração.
Na medida em que caminha pela estrada de sua própria história e anda pelas moradas do Amado, Teresa vai descobrindo a pessoa de Jesus cuja “sacratíssima humanidade” a encanta. Sua cristologia, inseparável de sua mística, é altamente realista, envolvendo sua corporeidade dinamizada pelo espírito do mesmo Jesus, que a ama com amor apaixonado e a vai conduzir até o matrimonio místico.
O compromisso de Teresa se faz determinante na medida em que avança na comunhão com o Cristo onde vê não só o Salvador, mas também Aquele que a faz feliz como mulher, a quem pode dar-se totalmente como esposa. É com S. Teresa que a mística esponsal se consolida no Ocidente cristão e o ideal do matrimônio espiritual, já lançado pelos Padres da Igreja, nela se confirma, não como teoria e doutrina, mas como experiência pessoal e vida.
Teresa não nasceu rezando, mas aprendeu a rezar e fez da oração a “arte de amar”. Vai repetindo para si mesma e para os outros que a oração “não consiste em muito pensar, mas sim em muito amar ”. Esta novidade por ela trazida para a prática e a orientação da vida espiritual influenciará toda a mística cristã daí em diante. Nela, inteligência e afetos se unem profundamente e, aonde não chegam intuição e inteligência, sempre chega o amor. É clássica a definição de Teresa sobre a oração: “Para mim a oração é um trato de amizade – estando muitas vezes tratando a sós - com Aquele que sabemos que nos ama ”. Teresa vê na oração não um intimismo, nem tampouco uma fuga do compromisso com o mundo, mas sim uma porta que se abre para entrar no “castelo interior da nossa alma onde está o Rei, sua Majestade”. Quanto mais rezamos mais avançamos nas moradas que nos levam à íntima comunhão e ao matrimônio espiritual e sentimos a necessidade de dedicar-nos a fazer algo: “obras quer o Senhor”.
A oração-amizade, vivida e ensinado por Teresa, exige e relativiza ao mesmo tempo os momentos de oração. Torna-se exigente, por ser a amizade à força de presença totalitária, busca do “trato a sós” com Deus.
Com “Aquele que sabemos que nos ama”. Porém relativiza, no sentido de que a oração-amizade, abre-se a vida. Esta surge como grande local para a vivência da oração-amizade.
A oração-amizade teresiana trasborda em impulsos apostólicos, na missionariedade e na comunhão com os outros. “Devemos deixar de rezar se é para estarmos com alguém que necessita de nossa ajuda”. A teologia oracional de Teresa é, portanto, comprometedora e libertadora; não fechada em si mesma, num “narcisismo” ou na busca de visões e autocomplacências estéreis. Em Teresa o amor se faz gesto e caminho de plena liberdade interior. Será seu mestre o próprio Cristo, que a guia por caminhos novos.

V Encontro de Jovens da OCDS

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